PERDOA-ME, leitor. Devo-te explicações rápidas ao título primeiro deste artigo. Não fazia a menor idéia de quem era o tal Justin Bieber, até pouco tempo atrás. Confesso-te que não mudou em nada minha vida ao tomar conhecimento que o semi-impúbere é cantor pop de apenas 16 anos e meio de idade. Que nasceu no Canadá em 1994. E canta, e também toca instrumentos musicais, desde uns doze anos de idade. Como se vê, não se trata de nenhum Mozart redivivo, que originalmente escreveu uma sinfonia aos quatro anos. Não. Minha curiosidade pelo pentelho e de ordem prática: todos falam nele! Sou meio avoado, distraído mesmo, chego a não fazer questão de retornar ao mundo dos mortais. Mas os jovens que me cercam insistem em fazer piadas e comentários sobre esta criatura e eu não conseguia entendê-los para participar das brincadeiras. Era um tal “biber” pra cá, um “justin” pra lá. Pronto: pensei tratar-se de mais uma nova estratégia de marketing do mês, talvez um lançamento “viral” de mais artista no palco de bizarrices de nossas mídias. Eu estava certo. Mas há algo diferente: o moleque aparentemente tem talento! Emplacou quatro “singles” numa famosa parada de sucesso americana, a Billboard. Entre outras façanhas. Claro que não tive a menor vontade de ouvir um som adolescente e feito para os mesmos. Mas os grandes artistas geralmente são precoces. Até (quem diria) o Paul McCartney já foi jovem nos tempos dos The Beatles. Quem sabe Justin Bieber seja o novo Elvis? A idéia me é assustadora, em todo caso, se ele estiver nas paradas por mais de uns, digamos, quatro anos: prometo então ouvir algo do rapaz antes que ele sucumba por uma overdose ou cometa algum suicídio para fazer gracinha ou resolva assaltar um trem a fim fugir do tédio.
AO FALAR em “assaltar um trem”, lembrei-me que o título deste artigo contempla a nossa Presidente eleita (de origem Búlgara), Dilma Rousseff. Bem, a ligação entre Justin Bieber e a Presidente Dilma é de ordem puramente subjetiva ao autor destas linhas, mera licença poética ou quase. Na verdade, o cantor pop adolescente é uma promessa nova que pretende vir a ser algo que preste. A nossa presidente eleita idem. Exceto que a presidente eleita já teve em sua juventude muitas emoções e que não faltou nem participar de grupos que assaltavam trens ou mais, precisamente, cofres em casa de político famoso-poderoso-e-corrupto, como Adhemar de Barros. Mas isso são coisas do passado, afinal a existência da Ditadura (ou Regime Militar, para os simpatizantes) justificava qualquer ação que lutasse contra ela. Ainda que muitos destes renegados (ou subversivos, ou guerrilheiros) quisessem é implantar outra tirania. Mas será que a Dilma não irá nos surpreender ou será que vai mandar goela abaixo algo equivalente à proposta inicial do Plano Nacional de Direitos Humanos -3 (ou PNDH-3)? Donde se previa o tal controle SOCIAL da mídia.
Nestas últimas semanas, o órgão federal CNE (Conselho Nacional de Educação) já deu provas que se inspirou no PNDH-3, pois a turma dele quer (ou quis) censurar a obra do saudoso Monteiro Lobato. Salvo engano, eles queriam classificar de racista e proibir o livro infantil “Caçadas de Pedrinho”, ou, sabe-se lá, poderiam ter outro livro em mira, como “Reinações de Narizinho”, este que em 1948 já havia vendido 100.000 (cem mil) exemplares, que encheu o bolso e fez a alegria do grande escritor, morto naquele mesmo ano.
MONTEIRO Lobato foi considerado pelos novos tempos como autor antiquado, preconceituoso devido às supostas manifestações racistas na sua obra. Digo “supostas manifestações”, pois há passagens nos seus livros que quase ninguém entende como alguns vêem racismo, mas são sim testemunho das idéias de seu tempo de escritor: início dos anos 10 até quase meados da década de 40 do século passado. Claro que aos nossos olhos atuais, de julgamento rasteiro, é tentador prejulgá-lo racista. Mas não se deve fazer isto com tamanho homem de talento. Lobato não foi apenas criador do inesquecível Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas autor um tanto desenvolto, que tem uma obra adulta deveras interessante. Formado em Direito, chegou a ser promotor de Taubaté-SP, mas terminou por se dedicar à literatura e aos negócios. Como jornalista publicou, por exemplo, uma coletânea de suas crônicas no livro “A Antevéspera” em que há uma bela demonstração de sua cultura, talento e visão de mundo. Não. Um homem como Lobato, dono de humor libertador e amante dos EUA, amava demais a democracia, a livre iniciativa e a liberdade para simplesmente merecer sofrer um achaque post-mortem deste fim de governo Lula, que se não fosse pelos tempos de bonança econômica poderia ter sucumbido a certo grau de autoritarismo. Espera-se que a Presidente eleita Dilma Rousseff, não permita que este ataque ao Lobato seja um ensaio para algo pior. Espero que ela nos surpreenda… tal como espera-se de Justin Bieber.
Madrugada de 08 de novembro de 2010.