
Ao revirar alguns de meus livros, eis que encontro um chamado “As Noúres – Técnicas e Recepção das Correntes de Pensamento”, do antigamente ilustre místico Pietro Ubaldi. Era italiano o homem, mas veio ao Brasil e gostou daqui, acabou por cá vivendo até a sua morte aos 85 anos de idade, em 1972.
Segundo consta no livro de Ubaldi, as noúres, um termo em italiano, traduzido por “as correntes de pensamento”, serve para designar a mediunidade superior, a mais elevada, de “efeitos psíquicos superiores”, pois esta trata da imersão íntima do médium nestas correntes sutis que emanam e permeiam outros planos de existência, acessível apenas aqueles com a sensibilidade aguçada para tal.
Veja só: não é qualquer bobagem não: não é bater-papo com gente morta ou enxergar espíritos para todo lado e culpá-los de tudo, ou mesmo o uso de poderes mentais fúteis para levitar ou fazer uso da telecinese, ao transportar com o poder da mente um objeto de um lugar ao outro. Não: isso são coisas para, digamos, “amadores” do espiritismo.
Diversamente, Pietro Ubaldi trata no livro acima citado, da elevação do espírito, da ascese mística, da subida aos últimos degraus da cadeia evolutiva acessível, da tentativa de se alcançar a maturidade plena do espírito humano.
Neste livro, ele explica racionalmente -com olhar da dúvida- sua própria experiência mística, pois ele fora abençoado pelo dom de haver alcançado o grau máximo de maturidade espiritual. Esta experiência mística foi vivida e externada na confecção de seu primeiro livro, “A Grande Síntese”, obra inspirada a ele por centros de pensamento no supranormal. (“A Grande Síntese”, para alguns sua obra-prima, foi escrita em quatro anos, à noite, pois durante dia o futuro místico tinha que cuidar da família e trabalhar para sobreviver – afinal, ele abdicara da imensa fortuna que lhe cabia por herança dos seus pais).
Nas altas horas, espírito arrebatado, Ubaldi fazia seu mergulho profundo na alma e era guiado ou inspirado por uma “fé profunda” que lhe dominava por completo.
O livro “As Noúres” trata-se então de uma anatomia do processo mediúnico superior que lhe permitiu escrever a sua primeira obra inspirada, “A Grande Síntese”, bem como estudar a substância deste fenômeno supranormal, através de lentes objetivas, baseadas em sua própria experiência: e o fez com sinceridade que salta aos olhos. E sozinho, diante de mistérios que a maioria humana não suspeita.
Não é um livro fácil de ler, apesar de apenas 220 páginas: deve-se lê-las com cuidado merecido a uma obra sui generis. Lembrar também que se trata de algo escrito em 1936, na primeira metade do século passado, o que nos permite ver por detrás algumas bases filosóficas em voga na época, como certos conceitos de lutas de espécies ou a fiel crença na evolução humana.
Ubaldi antecipa, com acerto, a inutilidade para a maioria dos homens de certos avanços tecnológicos sobre os “mistérios” que antes eram deixados sob o segredo da Natureza. Com o desenvolvimento científico e o fim dos mistérios da Natureza – pois esta se tornara decifrável, previsível e manipulável- passou o Homem a urgir por um novo alimento conceitual capaz de nutri-lo, de fazer frente aos seus novos tempos, aos tempos do psiquismo, não mais o mundo do predomínio da luta pela simples sobrevivência, pois garantida cada vez mais pela Ciência.
Chegara hora, então, da humanidade compreender e desenvolver a capacidade chamada de ultrafania: mediunidade superior de efeitos psíquicos. Uma mediunidade ativa e consciente. Não haveria mais espaço para domínio do inconsciente do médium, cujo “eu” era adormecido e temporariamente eliminado nas manifestações mediúnicas menos adiantadas.
Em certo momento da obra Ubaldi abandona o espírito científico –que considera limitador- na observação dos fenômenos e adota o método intuitivo, que seria o verdadeiro e revolucionário meio de se fazer ciência, pois leva em conta a interação da consciência do observador no tratamento do seu objeto.
Há a pretensão de que seus leitores aprendam a se harmonizar com o mundo espiritual, que conduziria ao êxtase místico em vida, último estágio da evolução possível e que Pietro Ubaldi tenta explicitar neste livro, narrando o eterno drama das ascensões humanas e revelando algumas leis de seu funcionamento.
Ele escreveu também mais de duas dezenas de livros que obviamente me abstenho de citá-los, mas para criticá-los posso apenas dizer que, Pietro Ubaldi, como um cristão que sempre fora, trabalhara com as idéias de redenção pela dor e pelo sentimento de culpa, idéias que este modesto escriba discorda, pois geram mais sofrimentos aos indivíduos.
Mas quem sou eu? Tire, por gentileza, suas próprias conclusões do livro que pode ser encontrado nos sebos ou na Fundação Pietro Ubaldi, mesmo pela internet.
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